Escrevo profissionalmente, mas as palavras (algumas delas, tem dias, tem muitos dias) muitas vezes levam o escrito para o lado pessoal. Não é que entendi que não ganho a vida com isso? O que acontece no ponto final dos escritos – e mesmo nos ditos – é que ganho vida escrevendo. Talvez uns dias a mais, já que -uma vez expressas- as coisas (portanto as palavras) ficam vivas. De quebra, eu. Onde trabalho, revisores vasculham por erros naquilo que crio. Depois de 30 anos a gente acostuma com sims, nãos,regras. Me perguntei porque não faço isso -seguir regras- em outros espaços, em lugares como este, por exemplo. Me respondi que é porque aqui ou nos portais estrelados, está tudo bem ser imperfeito, ou estava ou nunca realmente esteve, o tempo ganhou muito em desimportância. Gosto poder ser metade humano a outra metade também. Nada de nada, de nada, de nada há de irretocável na existência e no existir. Todos seremos, em alguma medida, injustiçados, não vistos, abandonados, torturados, finitos, bem-vindos e malditos. Não existe um var existencial. Seus gols podem ser anulados, passados desapercebidos e existe a chance real de você não ter feito uma falta que lhe expulsa do jogo. É assim, mesmo que você faça parte dos 20% felizes da Terra. É isso, mesmo que você não faça.
Foi dessa forma -escrevendo à mão, muito e no estrangeiro do visível- que chamei a atenção. Às vezes nem sei qual palavra é, mesmo, aquela do garrancho. Meus escritos (e ditos) têm cantinhos secretos. Sumiram porque sumir foi necessário, o que não quer dizer sem dor. É ali, nos apostos explicativos, que digo (quando você me compreende, o que nem sempre acontece). Agora me tornei um pretérito imperfeito, um presente mais que futuro, tempo verbal inexistente. Como não tem existência lugares e fatos sobre o que há, o que houve e o que se passa. É assim -nesse espaço entre aspas- que o meu tempo passa e o que escrevo se registra. Traz um certo alívio a supressão, a sentença apressada, o julgamento parcial e o desejo de sorte. Agora eu sou um ponto final de um texto não compreendido. Espero que a música toque.
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